Alguns conseguem dizer muito sobre outras pessoas atráves da leitura de mãos, astrologia ou hipnose. Eu consigo falar de alguém se visualizar o seu cachorro. Parece engraçado, mas é verdade pura, crua e canina: O cachorro que você tem, diz muito sobre você. E isso tem a ver mais com o aspecto do cão, do que com a raça dele, pois os donos conseguem enfeiar ou embelezar seus cães proporcionalmente a sua própria feiura ou beleza. E costumam dar seu toque especial como lacinhos da sua cor predileta, roupinhas que consideram bonitinhas, e parecidissimas com a suas próprias, embora isso eles não percebam, e assim por diante. Ou seja, eles adaptam o cachorro ao seu estilo próprio. E não somente na moda, mas também ao seu estilo de vida, e inclusive, a sua fisionomia. Isso mesmo: os cachorros adquirem em determinado periodo de tempo, caracteristicas fisicas muito similares as do dono. É muito estranho imaginar que aquele buldogue que o seu vizinho tem, possui similaridades físicas com ele, mas quando você ver os dois juntos, caminhando lado a lado na rua, irá notar as semelhanças. E vai achar muito engraçado. E viciante, é claro. Eu, por exemplo, sou um viciado consciente, pois não consigo andar na rua sem notar essas semelhanças, e comentar com quem quer que esteja comigo: “Aquele cachorro é dela. Olha só como os dois são parecidos. Olha a o nariz do cão e o dela, não são iguais??”, ou, “Olha como aquele cachorro é parecido com ele! Os dois tem o mesmo jeito de andar!” Mas aposto que você deve estar pensando: e quando alguém está passeando com um cão e não encontra-se nenhuma semelhante entre eles? Bom, nesse caso pode ter certeza que o cachorro não é da pessoa. Pode ser o marido levando o cachorrinho da esposa para passear, o sobrinho levando o cachorro da titia, o pai levando o cachorro da filhinha ou alguém contratado com essa função. Sempre há uma explicação para a falta de semelhança, pois ao meu ver, a semelhança entre ambos já é item obrigatório de série.
Aposto que após você ler isso vai começar a notar mais os cães e seus respectivos donos, olhá-los com um olhar crítico e fazer algumas constatações. E caso você ainda não tenha um cachorro, quando tiver, provavelmente irá cuidar da aparência dele. Se já tem, deve estar apenas esperando terminar de ler esse texto para ir procurar no google a pet shop mais perto da sua casa para dar um trato no seu cão (com muito bom gosto, é claro), pois de forma alguma quer que alguém faça uma análise errada de vocês.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Previsibilidade versus Gosto
Estava esses dias em um restaurante acompanhado de uma amiga e fui me servir de sobremessa. Foi só o tempo dela gritar:
- Eu não acredito que tu vai te servir de salada de frutas de novo!
- Sim, é a minha sobremessa preferida. E se não fosse salada de frutas seria gelatina...
Tive que ver um saudoso virar de olhos acompanhado de um balançar de cabeça:
- Tu é muito previsivel, sempre se serve da mesma coisa. Olha quantos doces deliciosos tem por aqui...
Ela estava certa quanto aos doces, mas errada quanto ao julgamento: Afinal, onde fica o meu livre arbitrio de escolher a minha própria sobremessa? Será que não passou pela cabeça dela que eu não possa gostar daqueles doces tanto quanto eu gosto de gelatina ou salada de frutas? Não acredito que meu caso seja de "previsão", mas sim, de "gosto". Afinal, quantas pessoas largam tudo o que estão fazendo para olhar tv? Ou melhor: quantas pessoas deixam de fazer qualquer outra coisa para ficar assistindo tv? Ou ficarem conectadas na internet, ao invés de dar um passeio num dia ensolarado? Elas não são previsiveis, mas possuem uma preferência específica. Cada um escolhe aquilo que lhe parece melhor. Por exemplo, quando vou escrever gosto de usar a fonte times (apenas ao escrever, não ao postar). Muitas pessoas que eu conheço detestam usar, mas eu prefiro. Gosto de usar porque me agrada ao escrever enxergar letras com serifas. Essa é a razão. E para esse ser o meu motivo, não é necessário que alguém sinta a mesma necessidade das serifas que eu sinto, ou consiga perceber o que eu percebo; Não é porque alguém não entende, que eu esteja dando uma falsa justificativa ou que ela não seja admissível. É como gostar de ler determinado autor, e a pessoa não compreender porque diabos você não lê aquele outro. Me entendem?
Vou continuar com a minha salada de frutas e gelatina: são mais naturais e já tenho certeza que são livres de quaisquer previsibilidades.
- Eu não acredito que tu vai te servir de salada de frutas de novo!
- Sim, é a minha sobremessa preferida. E se não fosse salada de frutas seria gelatina...
Tive que ver um saudoso virar de olhos acompanhado de um balançar de cabeça:
- Tu é muito previsivel, sempre se serve da mesma coisa. Olha quantos doces deliciosos tem por aqui...
Ela estava certa quanto aos doces, mas errada quanto ao julgamento: Afinal, onde fica o meu livre arbitrio de escolher a minha própria sobremessa? Será que não passou pela cabeça dela que eu não possa gostar daqueles doces tanto quanto eu gosto de gelatina ou salada de frutas? Não acredito que meu caso seja de "previsão", mas sim, de "gosto". Afinal, quantas pessoas largam tudo o que estão fazendo para olhar tv? Ou melhor: quantas pessoas deixam de fazer qualquer outra coisa para ficar assistindo tv? Ou ficarem conectadas na internet, ao invés de dar um passeio num dia ensolarado? Elas não são previsiveis, mas possuem uma preferência específica. Cada um escolhe aquilo que lhe parece melhor. Por exemplo, quando vou escrever gosto de usar a fonte times (apenas ao escrever, não ao postar). Muitas pessoas que eu conheço detestam usar, mas eu prefiro. Gosto de usar porque me agrada ao escrever enxergar letras com serifas. Essa é a razão. E para esse ser o meu motivo, não é necessário que alguém sinta a mesma necessidade das serifas que eu sinto, ou consiga perceber o que eu percebo; Não é porque alguém não entende, que eu esteja dando uma falsa justificativa ou que ela não seja admissível. É como gostar de ler determinado autor, e a pessoa não compreender porque diabos você não lê aquele outro. Me entendem?
Vou continuar com a minha salada de frutas e gelatina: são mais naturais e já tenho certeza que são livres de quaisquer previsibilidades.
domingo, 19 de setembro de 2010
A intolerante - Estórias de Psicólogos # 1
– Como assim não tem jeito?
Nunca imaginei ouvir isso de você. Eu faço terapia a tanto tempo que acredito merecer mais compreensão pelos meus problemas. Afinal, graças a eles é que eu estou aqui e pago todo santo mês a gorda conta pelo meu desequilibrio. Você nunca me respondeu nesse ar de desdem, nesse ar de “foda-se sua cretina, cada um com sua vida”. Me diz que não há jeito, que o que esta feito, esta feito, azar é o meu e ponto final. Você nem tem mais aquele olhar complacente. E onde estão as palavras otimistas e motivadoras? Você está tão azeda quanto uma laranja verde, que parece ter dormido com os pés destapados. Ou não deu. Mas tudo bem, se você não deu, não deu, eu até entendo, já me senti assim diversas vezes por não ter dado, mas bem que podia ao menos terminar de me escutar! Eu tô precisando desabafar cara!
– E eu acho melhor você dar o fora daqui.
Dar o fora daqui? Como assim? Isso é jeito de falar?? A sessão acabou de começar e você acabou de acabar? Que história é essa? Ai, ai,ai, acho que você não está muito bem mesmo. O que houve? Quer me contar? Desabafa comigo, talvez eu possa te ajudar, não é? Inversão de papéis não é o meu forte, mas eu posso abrir uma excessão para você...
- Não aguento mais ouvir você falar qualquer coisa que seja.
Bom, queridinha, nessa caso fica dificil. O que está acontecendo? Que bixo te mordeu? Olha, vou começar a levar a sério essas coisas, e desse jeito nunca mais volto aqui mesmo, viu? Mas deixe me ver, você está bem diferente... É o cabelo, né? Corte novo, ta na cara! Mas.... quem é essa criatura que finje que corta? Digo, acho melhor você mudar de cabelereiro, e tenho que te confessar que eu também ficaria meio amargurada caso fizessem isso comigo... Ele deve trabalhar numa pet shop, porque você está parecendo um poodle. Ou uma ovelha...
- Tenha uma boa tarde.
Perai, eu não disse que ia embora, não fica me cortando desse jeito. Além do mais ainda temos meia hora. E já que está de pé, aproveita e me busca um cafezinho por favor? Como assim, você não é minha empregada? E você não irá me trazer nem um copo d`água? Água não se nega a ninguém viu, minha vó já dizia isso... Sim, sim, mas é que eu tô precisando terminar de falar, pombas! Tô com a coisa intalada na garganta e não consigo colocar pra fora porque você não me deixa falar! Não, eu não vou vomitar no teu tapete Persa, não é isso que eu quis dizer... Bom, se você prefere ficar de pé tudo bem, eu não me importo. Mas pelo menos fica atrás da mesa, se ficar de pé na porta aberta igual um dois de paus vou começar a ficar ansiosa e com torcicolo de ficar com o pescoço virado. Estou começando a achar que você quer mesmo que eu vá embora. Como assim você quer mesmo? Como assim "até que enfim você percebeu isso"? Alguma coisa aconteceu para você estar me tratando dessa forma, não é? Me conta de uma vez, que eu prometo ir embora e nunca mais falamos sobre isso, ok? Ah... você trocou de profissão... é isso? Eu devia ter desconfiado... Bom, então já vou indo mesmo... muito obrig... mas que vaca! Fechou a porta na minha cara! Fez bem ter trocado de área, nunca gostei do trabalho dessa ordinária mesmo...
Nunca imaginei ouvir isso de você. Eu faço terapia a tanto tempo que acredito merecer mais compreensão pelos meus problemas. Afinal, graças a eles é que eu estou aqui e pago todo santo mês a gorda conta pelo meu desequilibrio. Você nunca me respondeu nesse ar de desdem, nesse ar de “foda-se sua cretina, cada um com sua vida”. Me diz que não há jeito, que o que esta feito, esta feito, azar é o meu e ponto final. Você nem tem mais aquele olhar complacente. E onde estão as palavras otimistas e motivadoras? Você está tão azeda quanto uma laranja verde, que parece ter dormido com os pés destapados. Ou não deu. Mas tudo bem, se você não deu, não deu, eu até entendo, já me senti assim diversas vezes por não ter dado, mas bem que podia ao menos terminar de me escutar! Eu tô precisando desabafar cara!
– E eu acho melhor você dar o fora daqui.
Dar o fora daqui? Como assim? Isso é jeito de falar?? A sessão acabou de começar e você acabou de acabar? Que história é essa? Ai, ai,ai, acho que você não está muito bem mesmo. O que houve? Quer me contar? Desabafa comigo, talvez eu possa te ajudar, não é? Inversão de papéis não é o meu forte, mas eu posso abrir uma excessão para você...
- Não aguento mais ouvir você falar qualquer coisa que seja.
Bom, queridinha, nessa caso fica dificil. O que está acontecendo? Que bixo te mordeu? Olha, vou começar a levar a sério essas coisas, e desse jeito nunca mais volto aqui mesmo, viu? Mas deixe me ver, você está bem diferente... É o cabelo, né? Corte novo, ta na cara! Mas.... quem é essa criatura que finje que corta? Digo, acho melhor você mudar de cabelereiro, e tenho que te confessar que eu também ficaria meio amargurada caso fizessem isso comigo... Ele deve trabalhar numa pet shop, porque você está parecendo um poodle. Ou uma ovelha...
- Tenha uma boa tarde.
Perai, eu não disse que ia embora, não fica me cortando desse jeito. Além do mais ainda temos meia hora. E já que está de pé, aproveita e me busca um cafezinho por favor? Como assim, você não é minha empregada? E você não irá me trazer nem um copo d`água? Água não se nega a ninguém viu, minha vó já dizia isso... Sim, sim, mas é que eu tô precisando terminar de falar, pombas! Tô com a coisa intalada na garganta e não consigo colocar pra fora porque você não me deixa falar! Não, eu não vou vomitar no teu tapete Persa, não é isso que eu quis dizer... Bom, se você prefere ficar de pé tudo bem, eu não me importo. Mas pelo menos fica atrás da mesa, se ficar de pé na porta aberta igual um dois de paus vou começar a ficar ansiosa e com torcicolo de ficar com o pescoço virado. Estou começando a achar que você quer mesmo que eu vá embora. Como assim você quer mesmo? Como assim "até que enfim você percebeu isso"? Alguma coisa aconteceu para você estar me tratando dessa forma, não é? Me conta de uma vez, que eu prometo ir embora e nunca mais falamos sobre isso, ok? Ah... você trocou de profissão... é isso? Eu devia ter desconfiado... Bom, então já vou indo mesmo... muito obrig... mas que vaca! Fechou a porta na minha cara! Fez bem ter trocado de área, nunca gostei do trabalho dessa ordinária mesmo...
sábado, 18 de setembro de 2010
Um encontro Fugaz
Dentre os guarda-sóis que se enfileiravam ao longo das areias brancas da praia, o dela destacava-se. Talvez, por seus detalhes nada convencionais - florido, com cores que abrangiam o laranja, roxo, rosa vivo, verde limão, e babados e mais babados. E não somente seu guarda-sol era atração nas areias daquela praia, como também, ela própria: moça, pele muito branca, cabelos vermelhos intenso, diversas tatuagens expostas, estrategicamente, por alguns locais de seu corpo mignon. Sem falar de seu maiô da década de 30, comprado, provavelmente, em algum brechó de Porto Alegre: o mais ousado de toda praia.
E foi nesse ínterim de sol e mar que ele tomou conhecimento dela; figura excêntrica perto das tantas outras que se alargavam ao seu lado com suas toalhas de praia espaçosas, guarda-sóis monótonos, biquínis minúsculos e cavados. Essa disparidade dela em relação ao restante das outras meninas que freqüentavam aquela praia, apenas acentuava seu fascínio. E então, ela se sentara, e após passar seu bloqueador solar, tirara de dentro da enorme ecobag um livro de algum autor cult. E em momento algum parecia interessada em pegar sol, ou jogar-se nas ondas daquele mar azul-quase-incolor; ao contrário, sua leitura mostrava-se mais interessante e viva que aquele fabuloso dia ensolarado. E enquanto todas as outras moças se esbaldavam no sol de escaldar, flertando com os rapazes que passavam, jogando acenos e sorrisinhos marotos, ela não dava a mínima para tudo aquilo: apenas em seu livro mantinha presa sua atenção.
E ele, que estava alguns poucos metros de distância, sentia uma vontade louca de puxar assunto com ela. Mas não o fazia, pois era um rapazinho tímido. E acreditava que seus óculos fundos de garrafa, seu corpo magro e desajeitado e sua sunga vermelha de vários verões, de forma alguma, o ajudariam para início de conversa. Sem saber, cultivava algo platônico: não amor, nem paixão, pois esses ainda desconhecia, mas uma grande atração. E essa atração platônica, era o que o fazia manter os olhos na figura notória que se estendia naquelas areias em pleno fim de janeiro. E era o que o fazia também, observar sutilmente ela virar as páginas do livro, com certa solenidade e precisão - e nem sequer uma piscada de olhos, ou um olhar de relance ela o dava. Nem ao menos parecia perceber sua insignificante presença. Na sua imaginação, sentia-se como um sapo, e ela, uma princesa de um reino distante.
E como é comum em dias de verão, o tempo fechou do nada e a chuva ameaçava cair em instantes. Mulheres, homens e crianças energicamente recolhiam suas tralhas, e rapidamente, a praia se esvaziava. E nessa agitação, apenas ele e a moça continuavam sentados, como se nada estivesse acontecendo. Quando as únicas figuras que se distinguiam entre as areias brancas e o céu cor de chumbo, eram ele e ela, a chuva começou a cair. Ambos, aos poucos, saiam do transe que se encontravam, quando sentiram a chuva fria desabar sobre eles. E, calmamente, a moça guardou seu livro e fechara seu guarda sol; e como por não ter-se algo mais a volta para enxergar, ela o viu. Diferente do que ele imaginava, ela não o repudiou, ao contrário, sorriu, ao mesmo tempo em que seus cabelos se agitavam ao vento, para em seguida, ficarem ensopados pela chuva que desandava; e ele vermelhou; e ela, com o sorriso convidativo ainda nos lábios, correu em direção as ondas, para logo após, lançar-se naquele mar intenso e agitado. E sem pensar, ele correu atrás, e também entrara no mar de águas frias, mas não a achou. E tentou de todas as formas encontrar aquela figura única que facilmente notaria dentre o azul marinho que o envolvia; e sem perceber, distanciava-se cada vez mais da orla. Até que em determinado momento, seus braços e pernas cansaram; e percebera ter nadado tanto, que nem conseguia avistar mais a praia. De repente, sentiu algo envolto em seu pé, e esse algo, puxava-o para o fundo; e desesperadamente se afogava. Com seus braços finos tentava subir à superfície, mas a cada frustrada tentativa, novo gole de água engolia. Até que sem mais forças para continuar, e certo de seu fim, desistiu, e afundou na profunda escuridão do mar. Concomitantemente, um grito apavorado saiu de sua garganta, fazendo todos a sua volta olharem assustados. Não sabia o que tinha acontecido: a pouco estava se afogando, e agora, estava de volta a praia, estendido debaixo de seu guarda-sol, o corpo com insolação pelo sol que pegara. E a moça também continuava lá, agora, lançando-lhe um olhar de desaprovação. E não demorou muito para que ela se levantasse, colocasse seu livro dentro da ecobag, recolhesse seu guarda-sol colorido e fosse embora. E ele, com o corpo ardendo, e ainda se recompondo do pesadelo que tivera, pensara, que assim, realmente, fora melhor para ambos.
E foi nesse ínterim de sol e mar que ele tomou conhecimento dela; figura excêntrica perto das tantas outras que se alargavam ao seu lado com suas toalhas de praia espaçosas, guarda-sóis monótonos, biquínis minúsculos e cavados. Essa disparidade dela em relação ao restante das outras meninas que freqüentavam aquela praia, apenas acentuava seu fascínio. E então, ela se sentara, e após passar seu bloqueador solar, tirara de dentro da enorme ecobag um livro de algum autor cult. E em momento algum parecia interessada em pegar sol, ou jogar-se nas ondas daquele mar azul-quase-incolor; ao contrário, sua leitura mostrava-se mais interessante e viva que aquele fabuloso dia ensolarado. E enquanto todas as outras moças se esbaldavam no sol de escaldar, flertando com os rapazes que passavam, jogando acenos e sorrisinhos marotos, ela não dava a mínima para tudo aquilo: apenas em seu livro mantinha presa sua atenção.
E ele, que estava alguns poucos metros de distância, sentia uma vontade louca de puxar assunto com ela. Mas não o fazia, pois era um rapazinho tímido. E acreditava que seus óculos fundos de garrafa, seu corpo magro e desajeitado e sua sunga vermelha de vários verões, de forma alguma, o ajudariam para início de conversa. Sem saber, cultivava algo platônico: não amor, nem paixão, pois esses ainda desconhecia, mas uma grande atração. E essa atração platônica, era o que o fazia manter os olhos na figura notória que se estendia naquelas areias em pleno fim de janeiro. E era o que o fazia também, observar sutilmente ela virar as páginas do livro, com certa solenidade e precisão - e nem sequer uma piscada de olhos, ou um olhar de relance ela o dava. Nem ao menos parecia perceber sua insignificante presença. Na sua imaginação, sentia-se como um sapo, e ela, uma princesa de um reino distante.
E como é comum em dias de verão, o tempo fechou do nada e a chuva ameaçava cair em instantes. Mulheres, homens e crianças energicamente recolhiam suas tralhas, e rapidamente, a praia se esvaziava. E nessa agitação, apenas ele e a moça continuavam sentados, como se nada estivesse acontecendo. Quando as únicas figuras que se distinguiam entre as areias brancas e o céu cor de chumbo, eram ele e ela, a chuva começou a cair. Ambos, aos poucos, saiam do transe que se encontravam, quando sentiram a chuva fria desabar sobre eles. E, calmamente, a moça guardou seu livro e fechara seu guarda sol; e como por não ter-se algo mais a volta para enxergar, ela o viu. Diferente do que ele imaginava, ela não o repudiou, ao contrário, sorriu, ao mesmo tempo em que seus cabelos se agitavam ao vento, para em seguida, ficarem ensopados pela chuva que desandava; e ele vermelhou; e ela, com o sorriso convidativo ainda nos lábios, correu em direção as ondas, para logo após, lançar-se naquele mar intenso e agitado. E sem pensar, ele correu atrás, e também entrara no mar de águas frias, mas não a achou. E tentou de todas as formas encontrar aquela figura única que facilmente notaria dentre o azul marinho que o envolvia; e sem perceber, distanciava-se cada vez mais da orla. Até que em determinado momento, seus braços e pernas cansaram; e percebera ter nadado tanto, que nem conseguia avistar mais a praia. De repente, sentiu algo envolto em seu pé, e esse algo, puxava-o para o fundo; e desesperadamente se afogava. Com seus braços finos tentava subir à superfície, mas a cada frustrada tentativa, novo gole de água engolia. Até que sem mais forças para continuar, e certo de seu fim, desistiu, e afundou na profunda escuridão do mar. Concomitantemente, um grito apavorado saiu de sua garganta, fazendo todos a sua volta olharem assustados. Não sabia o que tinha acontecido: a pouco estava se afogando, e agora, estava de volta a praia, estendido debaixo de seu guarda-sol, o corpo com insolação pelo sol que pegara. E a moça também continuava lá, agora, lançando-lhe um olhar de desaprovação. E não demorou muito para que ela se levantasse, colocasse seu livro dentro da ecobag, recolhesse seu guarda-sol colorido e fosse embora. E ele, com o corpo ardendo, e ainda se recompondo do pesadelo que tivera, pensara, que assim, realmente, fora melhor para ambos.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Malditas Senhas
Não vou começar esse texto dizendo que poucas coisas me incomodam, mas sim que dentre as tantas coisas que me incomodam, uma delas consegue me deixar ainda mais furioso: senhas. Não quero dar dica alguma para nenhum ladrão de senhas bancárias, mas minhas senhas costumam ser iguais. Digo, tenho diversas palavras/códigos/números que uso como senhas para diversos acessos, e para muitos acessos elas são iguais. Já faço isso para facilitar minha curta memória, mas mesmo assim, não adianta: quem disse que eu não me esqueço delas? É passar um tempo e eu já não me recordo se a senha daquele site de relacionamentos é “x” ou “y”, do MSN é “z” ou “t”, ou do banco é “p” ou “s”. E lá vou eu, tentando todas as possibilidades existentes, criadas e esquecidas por mim. Bufando de raiva, mais tentando é claro. E tento, tento e tento, e às vezes, não dá em nada. E eu lá bufando como um touro epilético. Esse foi o caso da minha senha do Orkut, que eu tentei tudo o que eu conseguia lembrar, e somente após um mês de milongas, é que me lembrei da bendita. Até então só acessava em alguns instantes no meu serviço, pois lá meu computador bonzinho fez questão de armazená-la, e no rápido momento em que digitava a primeira letra do login – sim, meu esquecimento é entre senhas, não logins – tudo acontecia. Sem falar que existem outros tipos odiáveis de senhas: as que espirram, (sim elas “espirram” pois é passar o prazo definido e atttccchhhimmm, elas espirraram e vão pro além) e as de três tentativas e tu se fode. Tu vai lá com toda a pose e tenta uma, errou e se preocupa, tenta a segunda, se apavora e arregala os olhos, tenta a terceira, errou, se fudeu, e grita: Nãoooo acredito que bloqueie meu cartão de novoooooo!
Depois da maldição das senhas que nos cercam, somente nos tornarmos escravos de alienígenas deve ser pior...
Depois da maldição das senhas que nos cercam, somente nos tornarmos escravos de alienígenas deve ser pior...
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
O Ingênuo
Jussara é do tipo de mulher que diversos homens já ouviram falar, e que diversas mulheres a odeiam sem mesmo saber sua origem. Jussara gosta de aproveitar a vida; é do tipo de moça namoradeira: dia está ficando com um; dia está se amassando com outro, não é mulher de ficar sozinha. No grupo de amigos de Nando, todos a conhecem, e alguns já tiveram a oportunidade de ter algo com a moça. Dessa forma, não era surpresa quando um dos membros do grupo chegava e falava que ficou com a Jussara no final de semana, e é claro, abria os detalhes mais íntimos a todos. Entre aqueles que já pegaram - é assim que se referiam - também era comum fazerem comparações; e entre os que a pegaram e os que ainda não a pegaram, era normal fazerem apostas de quem seria o próximo a pegar. Mulher fácil, todos no grupo a consideravam, menos o Nando.
E assim, quando Jussara começou a se engraçar por Nando, ninguém se surpreendeu, afinal, ela se engraçava por todos. Mas a surpresa foi que ela não queria desgrudar dele, da mesma forma como fez com todos os outros. Embora namoradeira, Jussara, é uma mulher bonita e atraente, e ninguém entendia o que ela viu em Nando: ele, um rapaz baixinho e quase careca, míope, que fica nervoso quando fala com uma mulher, que, realmente, não tem beleza física alguma. Então, o que afinal, despertou a atenção dela?
Isso se ela estiver interessada de verdade, um dos amigos comentou quando Nando não estava entre eles. Todos conheciam a fama que ela possuía, ninguém podia dizer o contrário. Era estranha aquela aparente mudança repentina dela, menos Nando enxergava isso. E quando eles tentavam o advertir, dizendo para ir com calma, que ela não era o tipo de mulher para se envolver, ele dizia: Bobagem pessoal. Ela realmente gosta de mim, e eu dela. Nada demais. Os amigos começaram a ficar preocupados quando Nando dissera gostar dela. Não queriam ver aquela mulher fazer o amigo deles se dar mal, e sabiam, hora ou outra, ele se daria.
E assim, o tempo passou, e os dois começaram a namorar sério. Todos ficaram de queixo caído quando Nando, em uma das tantas reuniões com os amigos, contou a novidade. E assim foi: algum tempo depois estavam noivos; alguns meses após o noivado, já estavam casados. Ele estava visivelmente apaixonado, e ela, mudada da água para o vinho, quase uma santa. Dizia que amaria seu docinho até o final da vida dela, e assim, com seus trejeitos faceiros, ajeitava seu decote.
Casaram-se e ele comprou um apartamento em um bairro nobre de Porto Alegre; Ele, que já tinha seu carro, comprou um para ela não precisar depender mais de ônibus para ir pro serviço; Na lua de mel foram para o Tahiti; Após algum tempo, ele abriu para ela sua própria estética; Fora todas as roupas, sapatos, bolsas e jóias caríssimas que ele á dava. Sim, ela era uma mulher de grande sorte.
Certo dia, ao chegar em casa mais cedo, encontrou Jussara com um dos seus amigos, fazendo sala, cozinha e quarto - aquele mesmo que duvidara se ela realmente estava interessada em Nando ou não. Pois que a briga foi feia: ele mandou o ex-amigo embora antes que perdesse a cabeça, e após discutir, também pôs a safada para fora de casa, somente com a roupa do corpo. E assim, se divorciaram. No final das contas, ele ainda teve que vender o apartamento que comprou, e dividir com ela; a estética e o carro, desde o começo estavam no nome dela; e, ainda por cima, teve de começar a pagar pensão para a moça, pois ela estava grávida dele quando foi embora...
Hoje em dia Nando aprendeu a selecionar suas amizades; a conhecer mais as mulheres com que se relaciona; a ser pai; a não gastar tanto de seu dinheiro, e o principal: a deixar de ser ingênuo.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Esquecida
Era uma mocinha muito bonitinha, mas tinha um problema: era esquecida. Esquecia de apagar as luzes, de pagar a conta de água, de guardar os livros, da comida no fogo e do leite no micro, do celular em algum lugar, do nome de filmes, do ritmo de músicas, da chave de casa pelo lado de dentro, de onde havia estacionado o carro no shopping, do cartão do banco, das reuniões semanais da empresa, dos aniversários de amigos, de tirar as lentes à noite, das consultas com o dentista, de tomar a pílula, de visitar seu irmão, que é alérgica a tomate, de pôr o despertador para despertar, de anotar na agenda os compromissos, de pagar a diarista, de retornar as ligações, das provas da faculdade, de comprar velas, de beber moderadamente, de ler o jornal, de onde pusera os óculos, canetas e cd’s... Enfim, ela se esquecia de tudo, e não era proposital seu esquecimento, apenas fora uma única vez; quando ela “se esquecera” do noivo no altar da igreja, e aproveitou sua fama de esquecida, para tirar proveito da situação.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Sra. Warlanda ajuda você
Boa noite. Não, boa noite, não. Para começar é melhor um olá, talvez? Não sei. Nunca havia escrito para uma revista antes, por isso não sei como começar. Bom, acredito que um olá está de bom tamanho. Gosto de revistas, livros, leio jornais também. Mas sempre vou direto aos pontos que me interessam: política, economia, atualidades. Não sou de ler horóscopo, sensacionalismo e outras coisas banais, essas eu pulo. Ou melhor, não lia. De umas semanas para cá, devido a alguns problemas, venho me sentindo diferente. E tal diferença foi que me fez começar a folhear essas páginas até então não exploradas, por tratar-se de assuntos que não estavam em meu âmbito de interesse. Confesso que eu nunca havia lido um horóscopo antes. Nunca acreditei nisso. Talvez quando o homem o criou funcionasse. Mas após a invenção da imprensa, e a propagação da internet, já não tenho tanta certeza quanto a sua veracidade, sendo que qualquer um pode escrever o que quiser. Mas, após minha mudança repentina de interesses, passei a lê-lo, mesmo que ainda me reste uma pontinha de dúvida. Agora, leio-o todos os dias, virei leitor fiel, não consigo ficar um dia sem descobrir o que os astros têm a dizer para mim, sempre na espera que algo bom seja revelado de antemão. Claro, minhas interpretações são sempre bem quistas, pois as interpretações que podem ser feitas em um horóscopo são inúmeras; mas sempre tento puxar as coisas para meu lado, fazendo pensamento positivo, na tentativa de atrair só coisas boas – como naquele livro que explica a lei da atração. Livro que após minha repentina mudança de interesses, já li duas vezes.
Nunca havia notado que nessa revista havia uma parte voltada para o emocional do leitor, em que pessoas enviam cartas ou e-mails, falando um pouco de si e de seus problemas do coração. Nada de disritmia cardíaca, angina ou problemas cardiovasculares; refiro-me no sentido figurado, coisas sobre o amor, sabe? Pois nesse ínterim de mudanças das ultimas semanas, descobri essa coluna intitulada “Sra. Warlanda ajuda você”. E, olha, percebi que aparece de tudo: desde pessoas que brigam com seus namorados pela forma que espremem o creme dental, até criaturas que se apaixonam pelo cunhado, tia-avó, sogra, ou objetos inanimados. Houve um caso de extrema curiosidade, que um rapaz afirmava ter se apaixonado por sua cabrita de estimação – codinome Anita, o dela, porque o dele não foi revelado – e jurava que a troca de afeto era recíproca! Fiquei pensando o que deve passar pela mente dessa pobre cabritinha. Ou melhor, dela e de seu esposo. Bom, o que quero dizer, é que após ler diversos relatos de pessoas expondo seus problemas e conflitos, e após Sra. Warlanda ter dado seu diagnóstico da situação que geralmente vem em forma de sábias palavras de conforto, estímulo ou consolo, decidi por abrir meu coração a todos – não é nada bizarro, como o caso de Anita, nem se refere a uma paixão proibida por minha tia. É apenas mais um caso de dor de cotovelo, como tantos que acontecem todos os dias. Serei resumido, tentarei não estender muito meu caso: Conheci uma pessoa, começamos a nos relacionar e terminou. Simples, não? Claro que não! Falando assim, até parece que estou vendo a situação de forma fria, o que não é verdade. É que esse é meu jeito, entende Sra. Warlanda? Às vezes falo pelos cotovelos sobre diversos assuntos; noutros não aprendi a não ser moderado - o que é esse caso. Mas preciso dizer que grande parte do problema que segue em minha vida, tem e não tem haver com esse fato consumado. Esse é um fato reservado, mas que faz parte de um todo, um todo composto de vários outros fatos isolados. Um conjunto de fatos isolados, que possuem em semelhança, não pessoas ou atitudes, mas os mesmos finais. Como se perder várias vezes em uma cidade, e chegar sempre na mesma praça; como assistir vários filmes, sempre com o mesmo tipo de fim; ou ouvir várias músicas que sempre falam sobre a mesma coisa. Frustrante, eu sei, mas com o tempo peguei a linha da coisa, e aprendi a limitar alguns sofrimentos desnecessários – pois com a prática, se tenta chegar à perfeição. E quando isso ocorrer, quem sabe eu não pare de sofrer no todo, e comece a perceber que realmente não há motivo para sofrer? Pois as coisas são ou não são; e se não o são, simplesmente, não são, compreende? Eu tento, mas até agora ainda não consegui ser assim. As coisas na pratica são muito mais difíceis do que na teoria, e elas nem sempre andam em paralelo, não acha?
Sra. Warlanda, já não sei se eu me relaciono com as pessoas erradas, por ter uma espécie de ima em meu corpo que as atrai, ou se as pessoas erradas é que se relacionam comigo, pelo inconsciente delas conseguir detectar quem é o alvo que está mais próximo e é o mais fácil em uma distância de mil metros, e elas virem direto em minha direção, e lançarem um sorriso como forma de aproximação, para assim, conseguirem atrair minha atenção. O que quero dizer é que não tenho sorte no amor. Acredite Sra. Warlanda, isso é realidade. Não consigo entender os gestos que me são transmitidos. Até estou lendo aquele livro que fala sobre as expressões corporais, que cada posição, cada gesto e interjeição, já diz tudo que a pessoa está sentindo em relação a você. Mas mesmo assim esta complicado. Por exemplo, se você se apega demais, eles se assustam e caem fora; se você não se apega, eles também se espantam, e caem fora; e se você tenta um meio termo, eles já estão a quilômetros de distancia de você. O que posso concluir é que tudo costuma acontecer somente por fora, e não por dentro! Warlandinha, Warlandinha, se conseguires me ajudar a entender esses gestos subliminares e obscuros, eu prometo ler sua coluna semanal pelo resto da minha vida. Ah, e eu ainda nem comentei sobre as esperas. As esperas são as piores: espera-se um telefonema, que não chega; ou um e-mail, que não entra; uma mensagem de boa noite, que não vem. E você nunca sabe o que houve, e fica no vácuo, e claro, vupt, eles somem. Sim, somem. Alguns trocam até o número do telefone. Pois bem, as esperas cansam, e esperar demais pode não dar retorno.
Eu estou escrevendo porque já estou desesperado, a verdade é essa. Não sei a quem recorrer. E graças a essa “fragilidade” que tomou conta de mim nas ultimas semanas, estou eu aqui, escrevendo esse e-mail, a essa hora da noite, porque o sono, não chega, e o amor, também não vem. Sra. Warlanda, não sou um rapaz feio, nem burro, nem interesseiro, ao contrario, sou o oposto disso. Mas não consigo compreender o que acontece, o que ocorre sempre que conheço alguém e esse alguém foge sem dar um tchau, um telefonema, ou dizer não querer nada. Sabe, se eles dissessem que realmente não querem nada, que apenas querem se divertir, eu ficaria até satisfeito, pois ao menos saberia que o problema não está em mim, e sim neles. Eles que não enxergam o quão bom é ter alguém para poder contar; alguém que te apóie; que te ouça e entenda; que te explique o que você ainda não sabe; que esteja ao seu lado nos momentos de tristeza e felicidade; que te cuide quando doente; que tenha desejos similares; que tenha os mesmos gostos para comida; que goste dos mesmos jogos, filmes e música; que saiba o que quer e onde quer chegar; goste de viajar, fazer amigos e aprender línguas; que cultive sonhos e saiba que sem eles, não se vive; que valorize os pequenos momentos; que faça de uma simples ocasião, um momento especial; que deseje ter um filho, ou ao menos, um cachorro para chamar de filho; que queira ter seu lar; que queira construir coisas juntos, nem que seja um castelinho de cartas; que queira acordar em um domingo ensolarado de primavera, e olhar para o lado, e poder saber, confiar, sentir, que sim, aquele cara que não é a perfeição em pessoa, que pode estar descabelado, com bafo de cigarro, e babando pelo canto da boca, sim, que é com ele que você pode contar, pois ele é seu amigo, parceiro e namorado. Enfim, alguém para quem você deseja ser alguém melhor do que é. Pois você o gosta. Ou nutre carinho grande. Ou o ama. Afinal, não há nada melhor no mundo que se deixar permitir amar alguém.
Bom, Sra. Warlanda, é isso. Para quem não fala muito sobre “coisas do coração”, me superei. Quem sabe alguém que leia não fique interessado, não? Bom, nunca se sabe. Só por via das dúvidas: sou loiro, tenho 1,90 de altura e olhos azuis. Ah, eu não havia me apresentado, meu nome é Josimar. Caso alguém se interesse mande e-mail, ou faça contato pelo intermédio da Sra. Warlanda, pois afinal, ela sempre está pronta para ajudar aqueles que sofrem de amor, com uma palavra de consolo, ou os que precisam ser amados, com palavras de estimulo, não é Warlandinha?
Nunca havia notado que nessa revista havia uma parte voltada para o emocional do leitor, em que pessoas enviam cartas ou e-mails, falando um pouco de si e de seus problemas do coração. Nada de disritmia cardíaca, angina ou problemas cardiovasculares; refiro-me no sentido figurado, coisas sobre o amor, sabe? Pois nesse ínterim de mudanças das ultimas semanas, descobri essa coluna intitulada “Sra. Warlanda ajuda você”. E, olha, percebi que aparece de tudo: desde pessoas que brigam com seus namorados pela forma que espremem o creme dental, até criaturas que se apaixonam pelo cunhado, tia-avó, sogra, ou objetos inanimados. Houve um caso de extrema curiosidade, que um rapaz afirmava ter se apaixonado por sua cabrita de estimação – codinome Anita, o dela, porque o dele não foi revelado – e jurava que a troca de afeto era recíproca! Fiquei pensando o que deve passar pela mente dessa pobre cabritinha. Ou melhor, dela e de seu esposo. Bom, o que quero dizer, é que após ler diversos relatos de pessoas expondo seus problemas e conflitos, e após Sra. Warlanda ter dado seu diagnóstico da situação que geralmente vem em forma de sábias palavras de conforto, estímulo ou consolo, decidi por abrir meu coração a todos – não é nada bizarro, como o caso de Anita, nem se refere a uma paixão proibida por minha tia. É apenas mais um caso de dor de cotovelo, como tantos que acontecem todos os dias. Serei resumido, tentarei não estender muito meu caso: Conheci uma pessoa, começamos a nos relacionar e terminou. Simples, não? Claro que não! Falando assim, até parece que estou vendo a situação de forma fria, o que não é verdade. É que esse é meu jeito, entende Sra. Warlanda? Às vezes falo pelos cotovelos sobre diversos assuntos; noutros não aprendi a não ser moderado - o que é esse caso. Mas preciso dizer que grande parte do problema que segue em minha vida, tem e não tem haver com esse fato consumado. Esse é um fato reservado, mas que faz parte de um todo, um todo composto de vários outros fatos isolados. Um conjunto de fatos isolados, que possuem em semelhança, não pessoas ou atitudes, mas os mesmos finais. Como se perder várias vezes em uma cidade, e chegar sempre na mesma praça; como assistir vários filmes, sempre com o mesmo tipo de fim; ou ouvir várias músicas que sempre falam sobre a mesma coisa. Frustrante, eu sei, mas com o tempo peguei a linha da coisa, e aprendi a limitar alguns sofrimentos desnecessários – pois com a prática, se tenta chegar à perfeição. E quando isso ocorrer, quem sabe eu não pare de sofrer no todo, e comece a perceber que realmente não há motivo para sofrer? Pois as coisas são ou não são; e se não o são, simplesmente, não são, compreende? Eu tento, mas até agora ainda não consegui ser assim. As coisas na pratica são muito mais difíceis do que na teoria, e elas nem sempre andam em paralelo, não acha?
Sra. Warlanda, já não sei se eu me relaciono com as pessoas erradas, por ter uma espécie de ima em meu corpo que as atrai, ou se as pessoas erradas é que se relacionam comigo, pelo inconsciente delas conseguir detectar quem é o alvo que está mais próximo e é o mais fácil em uma distância de mil metros, e elas virem direto em minha direção, e lançarem um sorriso como forma de aproximação, para assim, conseguirem atrair minha atenção. O que quero dizer é que não tenho sorte no amor. Acredite Sra. Warlanda, isso é realidade. Não consigo entender os gestos que me são transmitidos. Até estou lendo aquele livro que fala sobre as expressões corporais, que cada posição, cada gesto e interjeição, já diz tudo que a pessoa está sentindo em relação a você. Mas mesmo assim esta complicado. Por exemplo, se você se apega demais, eles se assustam e caem fora; se você não se apega, eles também se espantam, e caem fora; e se você tenta um meio termo, eles já estão a quilômetros de distancia de você. O que posso concluir é que tudo costuma acontecer somente por fora, e não por dentro! Warlandinha, Warlandinha, se conseguires me ajudar a entender esses gestos subliminares e obscuros, eu prometo ler sua coluna semanal pelo resto da minha vida. Ah, e eu ainda nem comentei sobre as esperas. As esperas são as piores: espera-se um telefonema, que não chega; ou um e-mail, que não entra; uma mensagem de boa noite, que não vem. E você nunca sabe o que houve, e fica no vácuo, e claro, vupt, eles somem. Sim, somem. Alguns trocam até o número do telefone. Pois bem, as esperas cansam, e esperar demais pode não dar retorno.
Eu estou escrevendo porque já estou desesperado, a verdade é essa. Não sei a quem recorrer. E graças a essa “fragilidade” que tomou conta de mim nas ultimas semanas, estou eu aqui, escrevendo esse e-mail, a essa hora da noite, porque o sono, não chega, e o amor, também não vem. Sra. Warlanda, não sou um rapaz feio, nem burro, nem interesseiro, ao contrario, sou o oposto disso. Mas não consigo compreender o que acontece, o que ocorre sempre que conheço alguém e esse alguém foge sem dar um tchau, um telefonema, ou dizer não querer nada. Sabe, se eles dissessem que realmente não querem nada, que apenas querem se divertir, eu ficaria até satisfeito, pois ao menos saberia que o problema não está em mim, e sim neles. Eles que não enxergam o quão bom é ter alguém para poder contar; alguém que te apóie; que te ouça e entenda; que te explique o que você ainda não sabe; que esteja ao seu lado nos momentos de tristeza e felicidade; que te cuide quando doente; que tenha desejos similares; que tenha os mesmos gostos para comida; que goste dos mesmos jogos, filmes e música; que saiba o que quer e onde quer chegar; goste de viajar, fazer amigos e aprender línguas; que cultive sonhos e saiba que sem eles, não se vive; que valorize os pequenos momentos; que faça de uma simples ocasião, um momento especial; que deseje ter um filho, ou ao menos, um cachorro para chamar de filho; que queira ter seu lar; que queira construir coisas juntos, nem que seja um castelinho de cartas; que queira acordar em um domingo ensolarado de primavera, e olhar para o lado, e poder saber, confiar, sentir, que sim, aquele cara que não é a perfeição em pessoa, que pode estar descabelado, com bafo de cigarro, e babando pelo canto da boca, sim, que é com ele que você pode contar, pois ele é seu amigo, parceiro e namorado. Enfim, alguém para quem você deseja ser alguém melhor do que é. Pois você o gosta. Ou nutre carinho grande. Ou o ama. Afinal, não há nada melhor no mundo que se deixar permitir amar alguém.
Bom, Sra. Warlanda, é isso. Para quem não fala muito sobre “coisas do coração”, me superei. Quem sabe alguém que leia não fique interessado, não? Bom, nunca se sabe. Só por via das dúvidas: sou loiro, tenho 1,90 de altura e olhos azuis. Ah, eu não havia me apresentado, meu nome é Josimar. Caso alguém se interesse mande e-mail, ou faça contato pelo intermédio da Sra. Warlanda, pois afinal, ela sempre está pronta para ajudar aqueles que sofrem de amor, com uma palavra de consolo, ou os que precisam ser amados, com palavras de estimulo, não é Warlandinha?
terça-feira, 13 de outubro de 2009
No ônibus
Como em todas as manhãs, Julio esperava no ponto de ônibus. E, como sempre, lia seu jornal, enquanto aguardava pelo dito cujo. Várias outras pessoas também aguardavam pelo coletivo, e se aglomeravam em blocos; alguns de braços cruzados ou ouvindo música; outros comendo algo, ou escorados nos ferros de sustentação. Não era um ponto de ônibus pequeno, era por se dizer, grande até. Mas a quantidade de pessoas que lá estavam, deixava o lugar um pouco apertado. Ali passavam duas linhas de ônibus: um que ia para o bairro, e outro que ia para o aeroporto. Para Julio, tanto fazia qual iria pegar, pois descia antes do final da linha de qualquer um deles, e o trajeto era igual para ambos até certo ponto. E como em todas as manhãs em que ia para o trabalho, o ônibus demorou, e como de hábito, ele olhava para os ponteiros do relógio que se distanciavam de um número ao outro rapidamente. E, claro, estava atrasado.
Tudo estava no mais perfeito atraso, quando todos avistaram a mulher do outro lado da rua. Não era uma mulher como todas as outras, pelo contrário: ela conseguiria chamar atenção mesmo que estivesse num lugar com mil pessoas. Tudo isso por causa de seu jeito despreocupado e desajeitado de andar, sem haver a mínima tentativa de aparentar certa discrição, ou talvez, leveza ao caminhar. Essa era sua forma natural de agir. Ela não era obesa, mas tinha muitos quilos a mais em seu corpo de estatura baixa. Julga-se não ser nada educada, pois mal atravessou a rua, abriu sua bolsa - enroscada em seu corpo como uma serpente - e de dentro, tirou uma quantidade grande de papéis, que não teve a menor dúvida em jogá-los por ali mesmo. E pela rua afora voavam papéis de bala, folhetos amassados, tickets de ônibus, como se tivessem asas e fossem lindas borboletas soltas pelo ar - o que de fato, não eram. Ouviram-se murmúrios e reclamações ao longo do ponto de ônibus. As pessoas estavam chocadas com tamanha falta de respeito. Todo o trabalho de conscientização que é feito pela mídia, envolto na sensibilização da população quanto ao lixo que produzem, pelo visto, não chegara aos ouvidos ou olhos dessa mulher. Houve um rapaz que gritou dentre as pessoas: Lixo se põe no lixo minha senhora. Óbvio que a mulher não iria deixar por menos. Ao chegar à parada, chegou chegando: com sua cara rabugenta, esbarrando nas pessoas, tentando atravessar a multidão que se aglomerava cada vez mais. O lixo é meu e eu coloco onde eu quiser, e depois de dizer isso se seguiu um palavrão ofensivo a mãe do corajoso rapaz que ousou recriminar a senhora mal educada. Todos fizeram sons de desaprovação. E mesmo assim, a mulher seguia dando importância alguma a opinião que as pessoas estavam tendo dela. Julio que continuava em pé, com o jornal aberto, já não conseguia mais prestar a atenção no que lia. Apenas notara de longe sua aproximação que vinha em direção onde estava. Ele tentou agir com mais naturalidade possível. Logo a mulher alojou-se ao seu lado, batendo com sua bolsa e diminuindo o espaço entre ele e o jornal. Julio tentou ignorar a presença da aberração que estava próxima a ele, o que não era fácil, conquanto ela volta e meia fazia-se notar muito facilmente. Fechou o jornal, certo que já não era mais possível ler noticia alguma. A mulher era muito espalhafatosa, e chamava a atenção por ser patética e desleixada. Não havendo mais clima, nem espaço para leitura, guardou o jornal na pasta. Nisso um ônibus apontou no horizonte. E todos resolveram ir bem para frente, para facilitar a entrada no coletivo. Quando Julio pensara, a senhora gorda já havia se enfiado em sua frente, fazendo ele se desequilibrar com a rapidez e a grosseria do gesto. O ônibus parou. As pessoas começaram a entrar na medida do possível. Julio e a mulher foram os últimos. A mulher entrara primeiro e ele, após. O ônibus estava lotado, e o único espaço que sobrou era próximo a porta de entrada. E assim foram: A mulher na frente, batendo e xingando as pessoas à medida que se sentia incomodada, e Julio, atrás dela, levando cotoveladas e sentindo náuseas, pois a mesma também tinha problemas com mau cheiro. O ônibus andava, mas as pessoas pareciam não descer, o que dificultava que ele passasse adiante, tentando enfim, deixar a mulher para trás. Com certo esforço, as pessoas começaram a movimentar-se dentro do coletivo, e desciam em suas respectivas paradas. Julio conseguiu movimentar-se também, mas dependia da mulher para que pudesse chegar mais para frente. Aos poucos, ambos saíram de perto da porta, chegaram perto do cobrador, a mulher xingou o cobrador pois alegava que o troco estava errado, e novas cotoveladas e bolsadas para todos os lados. Passaram a roleta, e a mulher em seguida esgueirou-se para um espaço vago. Julio, que ainda mantinha-se atrás dela, dera graças a Deus que poderia ultrapassá-la e livrar-se de tamanho incomodo. Mas quem disse que havia uma brecha. A mulher posicionou-se de tal forma, que ocupou seu espaço e grande parte do corredor também. Delicadamente, Julio tentara passar, fazendo um pouco de esforço, mas a mulher não se movia centímetro sequer; após, com um pouco mais de força, novamente tentara abrir espaço, mas a única alteração que houve na posição da mulher, foi um giro de cabeça, com um olhar fuzilante para ele. Julio, já estava de saco cheio. Pedira, com licença, mas seu tom de voz não soara bem aos ouvidos implicantes da mulher briguenta. E ela então começou sua ladainha: Mas que absurdo! Um homem empurrando uma mulher! ONDE JÁ SE VIU ISSO? Que falta de respeito! O que você está pensando seu... (duvidara da integridade da mãe de Julio)! Empurrando uma mulher! Covarde, ordinário, seu... (duvidara da sexualidade de Julio...)! No mínimo você deve ter inveja das mulheres, por que você não é uma (...), e queria ser. Seu abusado! Que absurdo! Viado sem vergonha! Onde já se viu isso? ONDE? ... (E continuara com a sessão desaforo...).
Tudo isso foi o suficiente para ele virar chacota dentro do coletivo. As pessoas não sabiam se riam da mulher louca, que urrava enlouquecidamente ofensas contra ele, fazendo gestos largos tentando puxá-lo pela camisa, ou se riam dele, que recebia mudo uma tempestade de xingamentos e palavrões que colocavam em jogo sua dignidade. E todos no coletivo riam sem parar, e alguns inclusive, ajudavam a mulher gritando alguns ai ai ai, ou, dá licença que a mulherzinha quer passar!
Julio puxou a campainha. Seu rosto prendia fogo, não gostava de se meter em baixaria. Nunca passara tamanho constrangimento diante de tantas pessoas em toda a sua vida. Descera umas três paradas antes do que devia, e as pessoas ainda continuavam a rir, e a mulher a gritar. E, agora, estava mais atrasado ainda para o trabalho. Mas de uma coisa estava certo: Nunca mais pegaria ônibus naquela parada.
Tudo estava no mais perfeito atraso, quando todos avistaram a mulher do outro lado da rua. Não era uma mulher como todas as outras, pelo contrário: ela conseguiria chamar atenção mesmo que estivesse num lugar com mil pessoas. Tudo isso por causa de seu jeito despreocupado e desajeitado de andar, sem haver a mínima tentativa de aparentar certa discrição, ou talvez, leveza ao caminhar. Essa era sua forma natural de agir. Ela não era obesa, mas tinha muitos quilos a mais em seu corpo de estatura baixa. Julga-se não ser nada educada, pois mal atravessou a rua, abriu sua bolsa - enroscada em seu corpo como uma serpente - e de dentro, tirou uma quantidade grande de papéis, que não teve a menor dúvida em jogá-los por ali mesmo. E pela rua afora voavam papéis de bala, folhetos amassados, tickets de ônibus, como se tivessem asas e fossem lindas borboletas soltas pelo ar - o que de fato, não eram. Ouviram-se murmúrios e reclamações ao longo do ponto de ônibus. As pessoas estavam chocadas com tamanha falta de respeito. Todo o trabalho de conscientização que é feito pela mídia, envolto na sensibilização da população quanto ao lixo que produzem, pelo visto, não chegara aos ouvidos ou olhos dessa mulher. Houve um rapaz que gritou dentre as pessoas: Lixo se põe no lixo minha senhora. Óbvio que a mulher não iria deixar por menos. Ao chegar à parada, chegou chegando: com sua cara rabugenta, esbarrando nas pessoas, tentando atravessar a multidão que se aglomerava cada vez mais. O lixo é meu e eu coloco onde eu quiser, e depois de dizer isso se seguiu um palavrão ofensivo a mãe do corajoso rapaz que ousou recriminar a senhora mal educada. Todos fizeram sons de desaprovação. E mesmo assim, a mulher seguia dando importância alguma a opinião que as pessoas estavam tendo dela. Julio que continuava em pé, com o jornal aberto, já não conseguia mais prestar a atenção no que lia. Apenas notara de longe sua aproximação que vinha em direção onde estava. Ele tentou agir com mais naturalidade possível. Logo a mulher alojou-se ao seu lado, batendo com sua bolsa e diminuindo o espaço entre ele e o jornal. Julio tentou ignorar a presença da aberração que estava próxima a ele, o que não era fácil, conquanto ela volta e meia fazia-se notar muito facilmente. Fechou o jornal, certo que já não era mais possível ler noticia alguma. A mulher era muito espalhafatosa, e chamava a atenção por ser patética e desleixada. Não havendo mais clima, nem espaço para leitura, guardou o jornal na pasta. Nisso um ônibus apontou no horizonte. E todos resolveram ir bem para frente, para facilitar a entrada no coletivo. Quando Julio pensara, a senhora gorda já havia se enfiado em sua frente, fazendo ele se desequilibrar com a rapidez e a grosseria do gesto. O ônibus parou. As pessoas começaram a entrar na medida do possível. Julio e a mulher foram os últimos. A mulher entrara primeiro e ele, após. O ônibus estava lotado, e o único espaço que sobrou era próximo a porta de entrada. E assim foram: A mulher na frente, batendo e xingando as pessoas à medida que se sentia incomodada, e Julio, atrás dela, levando cotoveladas e sentindo náuseas, pois a mesma também tinha problemas com mau cheiro. O ônibus andava, mas as pessoas pareciam não descer, o que dificultava que ele passasse adiante, tentando enfim, deixar a mulher para trás. Com certo esforço, as pessoas começaram a movimentar-se dentro do coletivo, e desciam em suas respectivas paradas. Julio conseguiu movimentar-se também, mas dependia da mulher para que pudesse chegar mais para frente. Aos poucos, ambos saíram de perto da porta, chegaram perto do cobrador, a mulher xingou o cobrador pois alegava que o troco estava errado, e novas cotoveladas e bolsadas para todos os lados. Passaram a roleta, e a mulher em seguida esgueirou-se para um espaço vago. Julio, que ainda mantinha-se atrás dela, dera graças a Deus que poderia ultrapassá-la e livrar-se de tamanho incomodo. Mas quem disse que havia uma brecha. A mulher posicionou-se de tal forma, que ocupou seu espaço e grande parte do corredor também. Delicadamente, Julio tentara passar, fazendo um pouco de esforço, mas a mulher não se movia centímetro sequer; após, com um pouco mais de força, novamente tentara abrir espaço, mas a única alteração que houve na posição da mulher, foi um giro de cabeça, com um olhar fuzilante para ele. Julio, já estava de saco cheio. Pedira, com licença, mas seu tom de voz não soara bem aos ouvidos implicantes da mulher briguenta. E ela então começou sua ladainha: Mas que absurdo! Um homem empurrando uma mulher! ONDE JÁ SE VIU ISSO? Que falta de respeito! O que você está pensando seu... (duvidara da integridade da mãe de Julio)! Empurrando uma mulher! Covarde, ordinário, seu... (duvidara da sexualidade de Julio...)! No mínimo você deve ter inveja das mulheres, por que você não é uma (...), e queria ser. Seu abusado! Que absurdo! Viado sem vergonha! Onde já se viu isso? ONDE? ... (E continuara com a sessão desaforo...).
Tudo isso foi o suficiente para ele virar chacota dentro do coletivo. As pessoas não sabiam se riam da mulher louca, que urrava enlouquecidamente ofensas contra ele, fazendo gestos largos tentando puxá-lo pela camisa, ou se riam dele, que recebia mudo uma tempestade de xingamentos e palavrões que colocavam em jogo sua dignidade. E todos no coletivo riam sem parar, e alguns inclusive, ajudavam a mulher gritando alguns ai ai ai, ou, dá licença que a mulherzinha quer passar!
Julio puxou a campainha. Seu rosto prendia fogo, não gostava de se meter em baixaria. Nunca passara tamanho constrangimento diante de tantas pessoas em toda a sua vida. Descera umas três paradas antes do que devia, e as pessoas ainda continuavam a rir, e a mulher a gritar. E, agora, estava mais atrasado ainda para o trabalho. Mas de uma coisa estava certo: Nunca mais pegaria ônibus naquela parada.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Ela
Passara pela mão de muita gente sem ser considerada leviana. Há muito tempo encontrasse nessas indas e vindas, com pessoas que sequer imaginava que existissem e em lugares inusitados. E isso já ocorre há tanto tempo... Desde o começo, já rolava de mão em mão, já era dada em troca de algo valioso, ou até mesmo, em troca de um serviço qualquer. Nunca soubera o nome de seus donos – e já tivera muitos -, embora tenha contato direto, sentindo dia após dia em seu corpo, o toque das mãos delicadas ou estúpidas que a amparam; Apenas possui silenciosa desconfiança de um nome próprio – o seu - e uma respectiva aparência – a sua -, tatuados em sua estreita matéria, sendo ofertado a ela por isso, valia diante de outras coisas maiores e mais significativas. Sua existência é repleta de altos e baixos, e se a conhecerem, perceberão inconstância apenas em fita-la: dia com um, dia com outra, coisa bissexual, que não escolhe quem, quando ou onde será desfrutada ou rasurada. Seu destino a Deus pertence. Fora trazida de longe para cá. Tivera a sorte de percorrer vários lugares. Algumas vezes fora olhada com ganância por ter sido símbolo do status de alguém, e em outros momentos, não carregara importância alguma, sendo levada de qualquer jeito, dada em troca de um cachorro-quente de rua ou oferecida a uma vadia pela troca de seus vulgares serviços. Fora bela, mas com o tempo perdera os bonitos traços da juventude. E então, depois de muitos anos percorrendo lugares, sentindo corpos, sendo cúmplice, amada por todos, usada, usada e usada, chegara seu fim. Naquele dia de chuva, em que seu ultimo dono a carregava desconfortavelmente no bolso da camisa suada, ao percorrer uma rua lamacenta, aos tropeços, cheirando a cachaça, em que ela esgueirou-se e voou para longe, até cair em uma poça d’água, gerada pela chuva que a pouco havia parado. Seus detalhes esmaecidos, perderam toda e qualquer vivacidade quem ainda possuíam; Seu rosto, nome e valor, gravados em seu corpo, aos poucos desprenderam-se em inúmeros fragmentos; Sua lucidez, esvaia-se junto com a vida que restava, e a água lamacenta levava sua matéria fragmentava para ser depositada por fim em algum fétido bueiro na calçada.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
L E T R A S
Sou feliz com letras, não com números. Descobri isso ontem, ou melhor, tomei consciência e resolvi encarar o fato de frente. Sabe quando você está perdido e segue um caminho? Pois bem, dizem que quando não se sabe para onde ir, qualquer lugar serve. Tudo balela. Peguei o caminho errado quando não tinha para onde ir, e tentei, arduamente segui-lo, e em vários momentos defrontei comigo mesmo, e várias vezes entrei em crise por isso. Tentei acreditar no que estava fazendo, que eu poderia gostar do que eu fazia, mas foi tudo em vão. Tempo perdido. No intimo, sempre soube que não conseguiria ser complacente com isso até o fim dos meus dias. Você não consegue afundar uma bóia dentro do mar, pois ela sempre emerge, entende? É a mesma coisa: embora tenha havido momentos que eu tenha me esquivado sem aranhões de algumas situações, e tenha me saído realmente bem naquilo que fiz, isso tudo não é concreto e nem suficiente, nem tem força o bastante para definir quem eu sou. Segui o caminho errado durante muito tempo sem saber, fui a fundo, entrei na floresta e ela era escura, eu sentia que era fria, mas pensava que mais adiante poderia ser quente. Esperei por isso. Caminhei muito para chegar onde estou – e não havia lanterna, isqueiro, vela, nada para me mostrar o caminho que eu percorria. Tateava como podia, e sentia coisas que não definia. Em alguns momentos andei de joelhos, noutros estive de quatro como um bicho e pude sentir as pedras no chão. Também eram geladas, e ásperas. Meu Deus, sempre esteve tudo tão claro, a luz não era fator necessário, e só agora é que percebo. E, somente agora, me vem essa repentina certeza em mente de que não é aqui que devo estar. Esse não é meu lugar. Não posso mais conviver com isso; cansei de ser racional, preciso de mais irracionalidade em minha vida. Queria que todas as fórmulas matemáticas que aprendi, toda a prática em cálculos, toda destreza no uso de calculadoras e tabelas que eu tenho, fossem para o espaço, ou ao menos, desaparecem sem deixar rastro. Quero ser um tecedor de letras. E quero a pratica em criar estórias. Quero tecer as letras seguindo o fio da minha imaginação, envolvendo tudo o que julgar necessário. E formar palavras, que juntas, se transformarão em frases; e que em conjunto, terão um significado maior. Porque sozinhas não são suficientes, são fraquinhas e não se bastam, não têm o mesmo poder ou ardor. Mas em grande quantidade, as palavras são reveladoras: desmistificam mistérios, dão luz a fantasias e asas a imaginação, criam ficção, são porta-vozes de noticias, reproduzem um universo único que só existe na cabeça daqueles que ousam transferir essa realidade para o papel. Com os números não é assim, não há nada a ser revelado. Eles são muito exatos e precisos, e isso já basta para defini-los. Ruim definir algo em duas palavras. Preciso de algo com mais teor e conteúdo, não posso fazer algo definido de forma tão monótona e vulgar. Eu quero mais. Estou em busca de algo que vá além do que posso compreender, e que mesmo assim, seja motivo para eu sorrir todos os dias. Preciso de mais emoção. E também encontrar e descobrir e desvendar aquilo que ainda não conheço e não entendo, assim como um descobridor de eventos cotidianos e fatos raros. Isso sim, me soa perfeito.
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