segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Previsibilidade versus Gosto

Estava esses dias em um restaurante acompanhado de uma amiga e fui me servir de sobremessa. Foi só o tempo dela gritar:



- Eu não acredito que tu vai te servir de salada de frutas de novo!


- Sim, é a minha sobremessa preferida. E se não fosse salada de frutas seria gelatina...


Tive que ver um saudoso virar de olhos acompanhado de um balançar de cabeça:


- Tu é muito previsivel, sempre se serve da mesma coisa. Olha quantos doces deliciosos tem por aqui...


Ela estava certa quanto aos doces, mas errada quanto ao julgamento: Afinal, onde fica o meu livre arbitrio de escolher a minha própria sobremessa? Será que não passou pela cabeça dela que eu não possa gostar daqueles doces tanto quanto eu gosto de gelatina ou salada de frutas? Não acredito que meu caso seja de "previsão", mas sim, de "gosto". Afinal, quantas pessoas largam tudo o que estão fazendo para olhar tv? Ou melhor: quantas pessoas deixam de fazer qualquer outra coisa para ficar assistindo tv? Ou ficarem conectadas na internet, ao invés de dar um passeio num dia ensolarado? Elas não são previsiveis, mas possuem uma preferência específica. Cada um escolhe aquilo que lhe parece melhor. Por exemplo, quando vou escrever gosto de usar a fonte times (apenas ao escrever, não ao postar). Muitas pessoas que eu conheço detestam usar, mas eu prefiro. Gosto de usar porque me agrada ao escrever enxergar letras com serifas. Essa é a razão. E para esse ser o meu motivo, não é necessário que alguém sinta a mesma necessidade das serifas que eu sinto, ou consiga perceber o que eu percebo; Não é porque alguém não entende, que eu esteja dando uma falsa justificativa ou que ela não seja admissível. É como gostar de ler determinado autor, e a pessoa não compreender porque diabos você não lê aquele outro. Me entendem?


Vou continuar com a minha salada de frutas e gelatina: são mais naturais e já tenho certeza que são livres de quaisquer previsibilidades.

domingo, 19 de setembro de 2010

A intolerante - Estórias de Psicólogos # 1

– Como assim não tem jeito?


Nunca imaginei ouvir isso de você. Eu faço terapia a tanto tempo que acredito merecer mais compreensão pelos meus problemas. Afinal, graças a eles é que eu estou aqui e pago todo santo mês a gorda conta pelo meu desequilibrio. Você nunca me respondeu nesse ar de desdem, nesse ar de “foda-se sua cretina, cada um com sua vida”. Me diz que não há jeito, que o que esta feito, esta feito, azar é o meu e ponto final. Você nem tem mais aquele olhar complacente. E onde estão as palavras otimistas e motivadoras? Você está tão azeda quanto uma laranja verde, que parece ter dormido com os pés destapados. Ou não deu. Mas tudo bem, se você não deu, não deu, eu até entendo, já me senti assim diversas vezes por não ter dado, mas bem que podia ao menos terminar de me escutar! Eu tô precisando desabafar cara!

– E eu acho melhor você dar o fora daqui.

Dar o fora daqui? Como assim? Isso é jeito de falar?? A sessão acabou de começar e você acabou de acabar? Que história é essa? Ai, ai,ai, acho que você não está muito bem mesmo. O que houve? Quer me contar? Desabafa comigo, talvez eu possa te ajudar, não é? Inversão de papéis não é o meu forte, mas eu posso abrir uma excessão para você...

- Não aguento mais ouvir você falar qualquer coisa que seja.

Bom, queridinha, nessa caso fica dificil. O que está acontecendo? Que bixo te mordeu? Olha, vou começar a levar a sério essas coisas, e desse jeito nunca mais volto aqui mesmo, viu? Mas deixe me ver, você está bem diferente... É o cabelo, né? Corte novo, ta na cara! Mas.... quem é essa criatura que finje que corta? Digo, acho melhor você mudar de cabelereiro, e tenho que te confessar que eu também ficaria meio amargurada caso fizessem isso comigo... Ele deve trabalhar numa pet shop, porque você está parecendo um poodle. Ou uma ovelha...

- Tenha uma boa tarde.

Perai, eu não disse que ia embora, não fica me cortando desse jeito. Além do mais ainda temos meia hora. E já que está de pé, aproveita e me busca um cafezinho por favor? Como assim, você não é minha empregada? E você não irá me trazer nem um copo d`água? Água não se nega a ninguém viu, minha vó já dizia isso... Sim, sim, mas é que eu tô precisando terminar de falar, pombas! Tô com a coisa intalada na garganta e não consigo colocar pra fora porque você não me deixa falar! Não, eu não vou vomitar no teu tapete Persa, não é isso que eu quis dizer... Bom, se você prefere ficar de pé tudo bem, eu não me importo. Mas pelo menos fica atrás da mesa, se ficar de pé na porta aberta igual um dois de paus vou começar a ficar ansiosa e com torcicolo de ficar com o pescoço virado. Estou começando a achar que você quer mesmo que eu vá embora. Como assim você quer mesmo? Como assim "até que enfim você percebeu isso"? Alguma coisa aconteceu para você estar me tratando dessa forma, não é? Me conta de uma vez, que eu prometo ir embora e nunca mais falamos sobre isso, ok? Ah... você trocou de profissão... é isso? Eu devia ter desconfiado... Bom, então já vou indo mesmo... muito obrig... mas que vaca! Fechou a porta na minha cara! Fez bem ter trocado de área, nunca gostei do trabalho dessa ordinária mesmo...

sábado, 18 de setembro de 2010

Um encontro Fugaz

Dentre os guarda-sóis que se enfileiravam ao longo das areias brancas da praia, o dela destacava-se. Talvez, por seus detalhes nada convencionais - florido, com cores que abrangiam o laranja, roxo, rosa vivo, verde limão, e babados e mais babados. E não somente seu guarda-sol era atração nas areias daquela praia, como também, ela própria: moça, pele muito branca, cabelos vermelhos intenso, diversas tatuagens expostas, estrategicamente, por alguns locais de seu corpo mignon. Sem falar de seu maiô da década de 30, comprado, provavelmente, em algum brechó de Porto Alegre: o mais ousado de toda praia.


E foi nesse ínterim de sol e mar que ele tomou conhecimento dela; figura excêntrica perto das tantas outras que se alargavam ao seu lado com suas toalhas de praia espaçosas, guarda-sóis monótonos, biquínis minúsculos e cavados. Essa disparidade dela em relação ao restante das outras meninas que freqüentavam aquela praia, apenas acentuava seu fascínio. E então, ela se sentara, e após passar seu bloqueador solar, tirara de dentro da enorme ecobag um livro de algum autor cult. E em momento algum parecia interessada em pegar sol, ou jogar-se nas ondas daquele mar azul-quase-incolor; ao contrário, sua leitura mostrava-se mais interessante e viva que aquele fabuloso dia ensolarado. E enquanto todas as outras moças se esbaldavam no sol de escaldar, flertando com os rapazes que passavam, jogando acenos e sorrisinhos marotos, ela não dava a mínima para tudo aquilo: apenas em seu livro mantinha presa sua atenção.

E ele, que estava alguns poucos metros de distância, sentia uma vontade louca de puxar assunto com ela. Mas não o fazia, pois era um rapazinho tímido. E acreditava que seus óculos fundos de garrafa, seu corpo magro e desajeitado e sua sunga vermelha de vários verões, de forma alguma, o ajudariam para início de conversa. Sem saber, cultivava algo platônico: não amor, nem paixão, pois esses ainda desconhecia, mas uma grande atração. E essa atração platônica, era o que o fazia manter os olhos na figura notória que se estendia naquelas areias em pleno fim de janeiro. E era o que o fazia também, observar sutilmente ela virar as páginas do livro, com certa solenidade e precisão - e nem sequer uma piscada de olhos, ou um olhar de relance ela o dava. Nem ao menos parecia perceber sua insignificante presença. Na sua imaginação, sentia-se como um sapo, e ela, uma princesa de um reino distante.

E como é comum em dias de verão, o tempo fechou do nada e a chuva ameaçava cair em instantes. Mulheres, homens e crianças energicamente recolhiam suas tralhas, e rapidamente, a praia se esvaziava. E nessa agitação, apenas ele e a moça continuavam sentados, como se nada estivesse acontecendo. Quando as únicas figuras que se distinguiam entre as areias brancas e o céu cor de chumbo, eram ele e ela, a chuva começou a cair. Ambos, aos poucos, saiam do transe que se encontravam, quando sentiram a chuva fria desabar sobre eles. E, calmamente, a moça guardou seu livro e fechara seu guarda sol; e como por não ter-se algo mais a volta para enxergar, ela o viu. Diferente do que ele imaginava, ela não o repudiou, ao contrário, sorriu, ao mesmo tempo em que seus cabelos se agitavam ao vento, para em seguida, ficarem ensopados pela chuva que desandava; e ele vermelhou; e ela, com o sorriso convidativo ainda nos lábios, correu em direção as ondas, para logo após, lançar-se naquele mar intenso e agitado. E sem pensar, ele correu atrás, e também entrara no mar de águas frias, mas não a achou. E tentou de todas as formas encontrar aquela figura única que facilmente notaria dentre o azul marinho que o envolvia; e sem perceber, distanciava-se cada vez mais da orla. Até que em determinado momento, seus braços e pernas cansaram; e percebera ter nadado tanto, que nem conseguia avistar mais a praia. De repente, sentiu algo envolto em seu pé, e esse algo, puxava-o para o fundo; e desesperadamente se afogava. Com seus braços finos tentava subir à superfície, mas a cada frustrada tentativa, novo gole de água engolia. Até que sem mais forças para continuar, e certo de seu fim, desistiu, e afundou na profunda escuridão do mar. Concomitantemente, um grito apavorado saiu de sua garganta, fazendo todos a sua volta olharem assustados. Não sabia o que tinha acontecido: a pouco estava se afogando, e agora, estava de volta a praia, estendido debaixo de seu guarda-sol, o corpo com insolação pelo sol que pegara. E a moça também continuava lá, agora, lançando-lhe um olhar de desaprovação. E não demorou muito para que ela se levantasse, colocasse seu livro dentro da ecobag, recolhesse seu guarda-sol colorido e fosse embora. E ele, com o corpo ardendo, e ainda se recompondo do pesadelo que tivera, pensara, que assim, realmente, fora melhor para ambos.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Malditas Senhas

Não vou começar esse texto dizendo que poucas coisas me incomodam, mas sim que dentre as tantas coisas que me incomodam, uma delas consegue me deixar ainda mais furioso: senhas. Não quero dar dica alguma para nenhum ladrão de senhas bancárias, mas minhas senhas costumam ser iguais. Digo, tenho diversas palavras/códigos/números que uso como senhas para diversos acessos, e para muitos acessos elas são iguais. Já faço isso para facilitar minha curta memória, mas mesmo assim, não adianta: quem disse que eu não me esqueço delas? É passar um tempo e eu já não me recordo se a senha daquele site de relacionamentos é “x” ou “y”, do MSN é “z” ou “t”, ou do banco é “p” ou “s”. E lá vou eu, tentando todas as possibilidades existentes, criadas e esquecidas por mim. Bufando de raiva, mais tentando é claro. E tento, tento e tento, e às vezes, não dá em nada. E eu lá bufando como um touro epilético. Esse foi o caso da minha senha do Orkut, que eu tentei tudo o que eu conseguia lembrar, e somente após um mês de milongas, é que me lembrei da bendita. Até então só acessava em alguns instantes no meu serviço, pois lá meu computador bonzinho fez questão de armazená-la, e no rápido momento em que digitava a primeira letra do login – sim, meu esquecimento é entre senhas, não logins – tudo acontecia. Sem falar que existem outros tipos odiáveis de senhas: as que espirram, (sim elas “espirram” pois é passar o prazo definido e atttccchhhimmm, elas espirraram e vão pro além) e as de três tentativas e tu se fode. Tu vai lá com toda a pose e tenta uma, errou e se preocupa, tenta a segunda, se apavora e arregala os olhos, tenta a terceira, errou, se fudeu, e grita: Nãoooo acredito que bloqueie meu cartão de novoooooo!


Depois da maldição das senhas que nos cercam, somente nos tornarmos escravos de alienígenas deve ser pior...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Ingênuo



          Nando era do tipo de homem ingênuo. E por mais que tentasse ser diferente, não adiantava. Acabava vez que outra sendo lubridiado; às vezes, por gozação de amigos, que já conheciam sua facilidade para acreditar em histórias falsas; noutras, por terceiros, nem sempre conhecidos, mas mal intencionados. Como prova disso, tivera várias decepções, graças ao tamanho de sua ingenuidade. E era ciente disso. Sabia que não estava nele acreditar em tudo o que os outros lhe diziam, afinal, acreditava que as pessoas não possuíam a real intenção de fazer o mal e quando o faziam, não era o objetivo. E isso, é o que fazia ele confiar seguidamente em tudo o que acontecia


          Jussara é do tipo de mulher que diversos homens já ouviram falar, e que diversas mulheres a odeiam sem mesmo saber sua origem. Jussara gosta de aproveitar a vida; é do tipo de moça namoradeira: dia está ficando com um; dia está se amassando com outro, não é mulher de ficar sozinha. No grupo de amigos de Nando, todos a conhecem, e alguns já tiveram a oportunidade de ter algo com a moça. Dessa forma, não era surpresa quando um dos membros do grupo chegava e falava que ficou com a Jussara no final de semana, e é claro, abria os detalhes mais íntimos a todos. Entre aqueles que já pegaram - é assim que se referiam - também era comum fazerem comparações; e entre os que a pegaram e os que ainda não a pegaram, era normal fazerem apostas de quem seria o próximo a pegar. Mulher fácil, todos no grupo a consideravam, menos o Nando.


          E assim, quando Jussara começou a se engraçar por Nando, ninguém se surpreendeu, afinal, ela se engraçava por todos. Mas a surpresa foi que ela não queria desgrudar dele, da mesma forma como fez com todos os outros. Embora namoradeira, Jussara, é uma mulher bonita e atraente, e ninguém entendia o que ela viu em Nando: ele, um rapaz baixinho e quase careca, míope, que fica nervoso quando fala com uma mulher, que, realmente, não tem beleza física alguma. Então, o que afinal, despertou a atenção dela?


         Isso se ela estiver interessada de verdade, um dos amigos comentou quando Nando não estava entre eles. Todos conheciam a fama que ela possuía, ninguém podia dizer o contrário. Era estranha aquela aparente mudança repentina dela, menos Nando enxergava isso. E quando eles tentavam o advertir, dizendo para ir com calma, que ela não era o tipo de mulher para se envolver, ele dizia: Bobagem pessoal. Ela realmente gosta de mim, e eu dela. Nada demais. Os amigos começaram a ficar preocupados quando Nando dissera gostar dela. Não queriam ver aquela mulher fazer o amigo deles se dar mal, e sabiam, hora ou outra, ele se daria.


          E assim, o tempo passou, e os dois começaram a namorar sério. Todos ficaram de queixo caído quando Nando, em uma das tantas reuniões com os amigos, contou a novidade. E assim foi: algum tempo depois estavam noivos; alguns meses após o noivado, já estavam casados. Ele estava visivelmente apaixonado, e ela, mudada da água para o vinho, quase uma santa. Dizia que amaria seu docinho até o final da vida dela, e assim, com seus trejeitos faceiros, ajeitava seu decote.


          Casaram-se e ele comprou um apartamento em um bairro nobre de Porto Alegre; Ele, que já tinha seu carro, comprou um para ela não precisar depender mais de ônibus para ir pro serviço; Na lua de mel foram para o Tahiti; Após algum tempo, ele abriu para ela sua própria estética; Fora todas as roupas, sapatos, bolsas e jóias caríssimas que ele á dava. Sim, ela era uma mulher de grande sorte.


          Certo dia, ao chegar em casa mais cedo, encontrou Jussara com um dos seus amigos, fazendo sala, cozinha e quarto - aquele mesmo que duvidara se ela realmente estava interessada em Nando ou não. Pois que a briga foi feia: ele mandou o ex-amigo embora antes que perdesse a cabeça, e após discutir, também pôs a safada para fora de casa, somente com a roupa do corpo. E assim, se divorciaram. No final das contas, ele ainda teve que vender o apartamento que comprou, e dividir com ela; a estética e o carro, desde o começo estavam no nome dela; e, ainda por cima, teve de começar a pagar pensão para a moça, pois ela estava grávida dele quando foi embora...


          Hoje em dia Nando aprendeu a selecionar suas amizades; a conhecer mais as mulheres com que se relaciona; a ser pai; a não gastar tanto de seu dinheiro, e o principal: a deixar de ser ingênuo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Esquecida

             
                  Era uma mocinha muito bonitinha, mas tinha um problema: era esquecida. Esquecia de apagar as luzes, de pagar a conta de água, de guardar os livros, da comida no fogo e do leite no micro, do celular em algum lugar, do nome de filmes, do ritmo de músicas, da chave de casa pelo lado de dentro, de onde havia estacionado o carro no shopping, do cartão do banco, das reuniões semanais da empresa, dos aniversários de amigos, de tirar as lentes à noite, das consultas com o dentista, de tomar a pílula, de visitar seu irmão, que é alérgica a tomate, de pôr o despertador para despertar, de anotar na agenda os compromissos, de pagar a diarista, de retornar as ligações, das provas da faculdade, de comprar velas, de beber moderadamente, de ler o jornal, de onde pusera os óculos, canetas e cd’s... Enfim, ela se esquecia de tudo, e não era proposital seu esquecimento, apenas fora uma única vez; quando ela “se esquecera” do noivo no altar da igreja, e aproveitou sua fama de esquecida, para tirar proveito da situação.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Sra. Warlanda ajuda você

 
Boa noite. Não, boa noite, não. Para começar é melhor um olá, talvez? Não sei. Nunca havia escrito para uma revista antes, por isso não sei como começar. Bom, acredito que um olá está de bom tamanho. Gosto de revistas, livros, leio jornais também. Mas sempre vou direto aos pontos que me interessam: política, economia, atualidades. Não sou de ler horóscopo, sensacionalismo e outras coisas banais, essas eu pulo. Ou melhor, não lia. De umas semanas para cá, devido a alguns problemas, venho me sentindo diferente. E tal diferença foi que me fez começar a folhear essas páginas até então não exploradas, por tratar-se de assuntos que não estavam em meu âmbito de interesse. Confesso que eu nunca havia lido um horóscopo antes. Nunca acreditei nisso. Talvez quando o homem o criou funcionasse. Mas após a invenção da imprensa, e a propagação da internet, já não tenho tanta certeza quanto a sua veracidade, sendo que qualquer um pode escrever o que quiser. Mas, após minha mudança repentina de interesses, passei a lê-lo, mesmo que ainda me reste uma pontinha de dúvida. Agora, leio-o todos os dias, virei leitor fiel, não consigo ficar um dia sem descobrir o que os astros têm a dizer para mim, sempre na espera que algo bom seja revelado de antemão. Claro, minhas interpretações são sempre bem quistas, pois as interpretações que podem ser feitas em um horóscopo são inúmeras; mas sempre tento puxar as coisas para meu lado, fazendo pensamento positivo, na tentativa de atrair só coisas boas – como naquele livro que explica a lei da atração. Livro que após minha repentina mudança de interesses, já li duas vezes.

Nunca havia notado que nessa revista havia uma parte voltada para o emocional do leitor, em que pessoas enviam cartas ou e-mails, falando um pouco de si e de seus problemas do coração. Nada de disritmia cardíaca, angina ou problemas cardiovasculares; refiro-me no sentido figurado, coisas sobre o amor, sabe? Pois nesse ínterim de mudanças das ultimas semanas, descobri essa coluna intitulada “Sra. Warlanda ajuda você”. E, olha, percebi que aparece de tudo: desde pessoas que brigam com seus namorados pela forma que espremem o creme dental, até criaturas que se apaixonam pelo cunhado, tia-avó, sogra, ou objetos inanimados. Houve um caso de extrema curiosidade, que um rapaz afirmava ter se apaixonado por sua cabrita de estimação – codinome Anita, o dela, porque o dele não foi revelado – e jurava que a troca de afeto era recíproca! Fiquei pensando o que deve passar pela mente dessa pobre cabritinha. Ou melhor, dela e de seu esposo. Bom, o que quero dizer, é que após ler diversos relatos de pessoas expondo seus problemas e conflitos, e após Sra. Warlanda ter dado seu diagnóstico da situação que geralmente vem em forma de sábias palavras de conforto, estímulo ou consolo, decidi por abrir meu coração a todos – não é nada bizarro, como o caso de Anita, nem se refere a uma paixão proibida por minha tia. É apenas mais um caso de dor de cotovelo, como tantos que acontecem todos os dias. Serei resumido, tentarei não estender muito meu caso: Conheci uma pessoa, começamos a nos relacionar e terminou. Simples, não? Claro que não! Falando assim, até parece que estou vendo a situação de forma fria, o que não é verdade. É que esse é meu jeito, entende Sra. Warlanda? Às vezes falo pelos cotovelos sobre diversos assuntos; noutros não aprendi a não ser moderado - o que é esse caso. Mas preciso dizer que grande parte do problema que segue em minha vida, tem e não tem haver com esse fato consumado. Esse é um fato reservado, mas que faz parte de um todo, um todo composto de vários outros fatos isolados. Um conjunto de fatos isolados, que possuem em semelhança, não pessoas ou atitudes, mas os mesmos finais. Como se perder várias vezes em uma cidade, e chegar sempre na mesma praça; como assistir vários filmes, sempre com o mesmo tipo de fim; ou ouvir várias músicas que sempre falam sobre a mesma coisa. Frustrante, eu sei, mas com o tempo peguei a linha da coisa, e aprendi a limitar alguns sofrimentos desnecessários – pois com a prática, se tenta chegar à perfeição. E quando isso ocorrer, quem sabe eu não pare de sofrer no todo, e comece a perceber que realmente não há motivo para sofrer? Pois as coisas são ou não são; e se não o são, simplesmente, não são, compreende? Eu tento, mas até agora ainda não consegui ser assim. As coisas na pratica são muito mais difíceis do que na teoria, e elas nem sempre andam em paralelo, não acha?

Sra. Warlanda, já não sei se eu me relaciono com as pessoas erradas, por ter uma espécie de ima em meu corpo que as atrai, ou se as pessoas erradas é que se relacionam comigo, pelo inconsciente delas conseguir detectar quem é o alvo que está mais próximo e é o mais fácil em uma distância de mil metros, e elas virem direto em minha direção, e lançarem um sorriso como forma de aproximação, para assim, conseguirem atrair minha atenção. O que quero dizer é que não tenho sorte no amor. Acredite Sra. Warlanda, isso é realidade. Não consigo entender os gestos que me são transmitidos. Até estou lendo aquele livro que fala sobre as expressões corporais, que cada posição, cada gesto e interjeição, já diz tudo que a pessoa está sentindo em relação a você. Mas mesmo assim esta complicado. Por exemplo, se você se apega demais, eles se assustam e caem fora; se você não se apega, eles também se espantam, e caem fora; e se você tenta um meio termo, eles já estão a quilômetros de distancia de você. O que posso concluir é que tudo costuma acontecer somente por fora, e não por dentro! Warlandinha, Warlandinha, se conseguires me ajudar a entender esses gestos subliminares e obscuros, eu prometo ler sua coluna semanal pelo resto da minha vida. Ah, e eu ainda nem comentei sobre as esperas. As esperas são as piores: espera-se um telefonema, que não chega; ou um e-mail, que não entra; uma mensagem de boa noite, que não vem. E você nunca sabe o que houve, e fica no vácuo, e claro, vupt, eles somem. Sim, somem. Alguns trocam até o número do telefone. Pois bem, as esperas cansam, e esperar demais pode não dar retorno.

Eu estou escrevendo porque já estou desesperado, a verdade é essa. Não sei a quem recorrer. E graças a essa “fragilidade” que tomou conta de mim nas ultimas semanas, estou eu aqui, escrevendo esse e-mail, a essa hora da noite, porque o sono, não chega, e o amor, também não vem. Sra. Warlanda, não sou um rapaz feio, nem burro, nem interesseiro, ao contrario, sou o oposto disso. Mas não consigo compreender o que acontece, o que ocorre sempre que conheço alguém e esse alguém foge sem dar um tchau, um telefonema, ou dizer não querer nada. Sabe, se eles dissessem que realmente não querem nada, que apenas querem se divertir, eu ficaria até satisfeito, pois ao menos saberia que o problema não está em mim, e sim neles. Eles que não enxergam o quão bom é ter alguém para poder contar; alguém que te apóie; que te ouça e entenda; que te explique o que você ainda não sabe; que esteja ao seu lado nos momentos de tristeza e felicidade; que te cuide quando doente; que tenha desejos similares; que tenha os mesmos gostos para comida; que goste dos mesmos jogos, filmes e música; que saiba o que quer e onde quer chegar; goste de viajar, fazer amigos e aprender línguas; que cultive sonhos e saiba que sem eles, não se vive; que valorize os pequenos momentos; que faça de uma simples ocasião, um momento especial; que deseje ter um filho, ou ao menos, um cachorro para chamar de filho; que queira ter seu lar; que queira construir coisas juntos, nem que seja um castelinho de cartas; que queira acordar em um domingo ensolarado de primavera, e olhar para o lado, e poder saber, confiar, sentir, que sim, aquele cara que não é a perfeição em pessoa, que pode estar descabelado, com bafo de cigarro, e babando pelo canto da boca, sim, que é com ele que você pode contar, pois ele é seu amigo, parceiro e namorado. Enfim, alguém para quem você deseja ser alguém melhor do que é. Pois você o gosta. Ou nutre carinho grande. Ou o ama. Afinal, não há nada melhor no mundo que se deixar permitir amar alguém.

Bom, Sra. Warlanda, é isso. Para quem não fala muito sobre “coisas do coração”, me superei. Quem sabe alguém que leia não fique interessado, não? Bom, nunca se sabe. Só por via das dúvidas: sou loiro, tenho 1,90 de altura e olhos azuis. Ah, eu não havia me apresentado, meu nome é Josimar. Caso alguém se interesse mande e-mail, ou faça contato pelo intermédio da Sra. Warlanda, pois afinal, ela sempre está pronta para ajudar aqueles que sofrem de amor, com uma palavra de consolo, ou os que precisam ser amados, com palavras de estimulo, não é Warlandinha?